quarta-feira, 25 de novembro de 2009

"Remember when you were young, you shone like the sun
Shine on you crazy diamond.
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky"
Pink Floyd.

- Alguém importante deve ter morrido - Falou o mais velho
- Ué, por quê?
- Porque quando chove desse jeito, é porque alguém importante na vida de alguém morreu.

Os dois conversavam sentados perto da janela do quarto. Luzes apagadas, e apenas a chama avermelhada do cigarro. O frio, o café quente, e o silêncio.
Era incrível conversar com ele. Era incrível fazer qualquer coisa com ele, o mais novo pensava.
Falar do tempo, o que parecia entediante, tornava-se bonito e quase poético, quando chegava na boca do mais velho. Falavam de tudo, sem banalidades. Até mesmo o silêncio, coisa que mais o incomodava, era confortável, apenas quando compartilhava a falta de palavras com ele.
O mais novo então viu-se interrompido pela figura do mais velho, que levantava lentamente com o cigarro nas mãos, e ia em direção à estante do quarto, onde estavam os CDs, enfileirados. E ia assim, deslizando o dedo indicador com os olhos fechados passando um por um nos CDs.

- Quando você quiser que eu pare, eu paro.

Com os dedos parados sobre um cd escolhido ao acaso, retirou-o da estante.
Ambos deitados no chão, usufruindo do piso gelado, com a cabeça em frente à outra, como gêmeos siameses ainda não separados. Tragavam lentamente o cigarro, ensaiando um jeito cinematográfico clássico francês, de aproveitar o momento.
Cheios de cafeína, chuva, vento e o solo incrível de Shine On You Crazy Diamond.
O mais novo olhava espantado para a janela escancarada, a chuva era forte, e parecia que o vento arrancaria as árvores da raíz. Sentiu um aperto no peito.

- Será que quando eu morrer vai chover dessa maneira?

Com uma breve pausa, um suspiro, o mais velho o encarou.

- Será inverno para sempre.

E tragou o cigarro com mais força.

As gotas grossas de chuva pareciam acompanhar o solo, e assim, lentamente, iam atingindo o chão, com pancadas fortes. Iam descarregando as nuvens pesadas, como se as nuvens tivessem prendido o choro por muitos, e muitos anos, e, assim, estariam agora desabafando.
O café esfriava dentro da xícara, assim não funcionaria então para aquecer seus corpos jovens. Então, foram se aproximando e abraçaram-se com vontade, sem preconceitos, sem malícia, o mais novo colocava os braços em volta da cintura do mais velho, que assim, aproximava-se do outro para abraçá-lo inteiro, criando certo calor recíproco, e uma forma bonita desenhada pelos seus corpos no chão gélido.

Quase adormecendo então, o mais novo falou.

- Alguém muito importante mesmo deve ter morridO. Não pára de chover.
O mais velho riu, olhando para a imagem inocente ao seu lado.
- Pensando bem...Talvez ninguém tenha morrido. Talvez hoje, algo grande esteja nascendo.

Like Pies and Cakes

- Sometimes it's better off not knowing, and other times there's no reason to be found.
- Everything has a reason.
- It's like these pies and cakes. At the end of every night, the cheesecake and the apple pie are always completely gone. The peach cobbler and the chocolate mousse cake are nearly finished... but there's always a whole blueberry pie left untouched...

Respirava fundo e piscava lentamente, como se tudo ocorresse em camera lenta, como se todas as estações do ano estivessem passando à seus olhos, e não vise nada. Rostos estranhos observando, ombros esbarrando em ombros, gotas de chuva manchando roupas, o sol secando-as. As folhas secas caindo das árvores e nascendo de novo, e nada disse chamava atenção. O telefone não parava de tocar, era isso, a única coisa que despertava-lhe uma certa inquietação.
Levantou-se da cama e andou até o toca discos, na mesma hora, o telefone tocou de novo, por fim, com aquela sonoridade penetrando devastadoramente em seus tímpanos resolveu atender, e então após um certo tempo com os ouvidos colados á ele, caiu em prantos. Chorou o que não chorava havia um tempo, revelando a si mesmo sua angústia e tristeza. Era mestre em fingir auto estima quando precisava socializar, mas quando encontrava-se sozinho com o seu blues doce, os cigarros, a solidão e o pensamento, sempre sentia um certo aperto no peito, mesmo que não deixasse chorar. Pensou em fugir para que sentissem falta, mas não havia dinheiro,não havia paciência para tomar cuidado nas ruas perigosas de sua cidade. E certamente não sabia se alguém realmente perceberia a sua ausência.
Despia-se lentamente, por completo. Sem vergonha, sem pudor. As pessoas olhavam-no no meio da rua, e apenas o olhavam, não prestavam atenção. Era como se ele apenas fosse uma sombra à mais na rua. Completamente nu, e aberto, qualquer um podia enxergar as coisas mais belas e as coisas mais horrorosas que possuía. Desde seu coração, até as tripas. De braços abertos ninguém o enxergava, não ousavam chegar perto. Cru, alí estava. Nem mesmo corvos famintos tinham sede por sua carne.
O sol forte batia em suas vísceras expostas, e o cheiro de carne podre tomava todo o ar. Pensava que não poderia ser possível que ninguém a notasse alí, queria passo à frente mas não tinha pernas, não tinha forças. Então completamente desfigurada, sua carne desmoronou de vez. Aproximou-se um homem, que apenas com uma pá, catou os restos no chão, e os jogou no rio.

-...So what's wrong with the blueberry pie?
-There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... people make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... no one wants it.


My Blueberry Nights













And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try, you'll never know
Just what you're worth.


Coldplay - Fix you

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quase fuga

Corria em uma velocidade inexplicável, o mato verde a sua volta tinha cheiro de gotas que estavam prestes a sair das nuvens carregadas e cinzas.
Ainda com a quase chuva, com o quase cansaço, corria. Corria porque era o melhor a ser feito, corria das mentiras, das tentações estúpidas que lhes proporcionavam. Subia o mais rápido que podia a colina que a esperava, pensou que não haveria rastros, não haveria gotas de suor escorrendo-lhe à testa, não haveria mais barulho.
Uma falta de ar tomava-lhe o peito, e sua respiração parecia enfraquecer, suspirando mais fortemente quando pensava em pré acontecimentos, a aflição do seu próprio ser. Não era louca, mas queria ser.
Era tão lúcida, tão estupidamente verdadeira que uma dose de loucura não lhe faria mal. Pensava que se não fosse assim, tão assim dizendo, normal, pura, tão moça, como um colete à prova de balas, algumas pequenas coisas não atingiriam o seu interior, como armas de pequeno porte. Então buscava alternativas que não fossem tão além de sua capacidade de suportar os impactos, alternativas quase loucas, que a ajudasse a suprir, ainda que, momentaneamente o vazio que tinha em si mesma.
Corria com um quase sorriso no rosto, um sorriso nervoso. Ao alcançar o quase alto, joga o peso sobre as pernas que a fazem cair, com a cabeça encostada na árvore, pensava que o que estava fazendo era ridículo, não tinha fundamento algum. Prepotência, pensava, só poderia ser isso.
Flashes passavam a tua cabeça, respiração ofegante lhe fazia roer as quase unhas que em sua carne nascia. As horas passavam rápido, poderia até dizer que dava para sentir o tempo passando por seus olhos.
Ele não viria, pensava. Ele não conseguiria subir ao quase topo como tinha subido, não faria o mesmo caminho que tivera feito à pouco, não alcançaria as tuas mãos nem os lábios, não a confortaria no próprio peito como uma criatura recém nascida, acariciando-lhe a testa e sorrindo nos seus sorrisos.
Ninguém ali, nem humanos, nem vozes, nem mesmo estrelas. Não havia silêncio o bastante para seus ouvidos, para o seu próprio silêncio. O céu que era quase nublado, dava lugar ao roxo misturado com rosa, que assustadoramente tomava o céu. Sem sol, sem chuva, sem estrelas, sem lua. Não conseguia passar de meias palavras, não concluía pensamentos. Nada mais doía, apenas quando o sentimento todo contorcia-se, ofuscava-se, apagava-se, e no meio da noite, repentinamente, acendia. Então punha-se a chorar na janela com o cigarro entre os dedos trêmulos, e uma dose de vodka russa que ganhara de um parente antigo.
Apesar de ali estar, sozinha, na merda, sem a capacidade de lidar com a própria quase vida, com o próprio quebra cabeça que denominava-se sentimento, sabia que mesmo ali, a vida continuava acontecendo, as pessoas não paravam as suas vidas apenas para prestar atenção em apenas uma, inútil, e quase vida que encerrava-se sem nenhuma glória deixada para trás, sem nenhuma marca deixada no mundo. "O que vai acontecer?" "O que se tem a fazer?" "E o amanhã, o que me espera?". Absolutamente nada. Andar e olhar, sem pensar, só olhar, sem sentir.
Era sempre quase. Quase, quase, quase. Quase tudo acontecia, quase tudo se completava, quase morreria. Um quase amor, um quase casamento. Uma quase...

Vida.

sábado, 31 de outubro de 2009













I wish that I was born a thousand years ago
I wish that I'd sail the darkened seas
On a great big clipper ship
Going from this land here to that
In a sailor's suit and cap
Away from the big city
Where a man can not be free
Of all of the evils of this town
And of himself, and those around



Velvet Underground - Heroin

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo, e fico horas sem pensar absolutamente nada: (...) Claro, é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Verde, O Silêncio e o Vermelho









Sabiam que tinha uma tensão no ar, mas tentavam fingir que tudo estava bem, calados, pupílas dilatadas vermelhas e o silêncio absoluto, que só era interrompido pelos ônibus com seus motores fortes, que ressoavam pela sala.
No curto espaço em que previam que o sinal ficaria vermelho, e , assim, todos os ônibus e motores altos calar-se-iam, e tentariam achar alguma palavra que fizesse sentido para que quebrassem de vez o silêncio, ou talvez, uma palavra chave que fizesse com que o assunto, os barulhos, as respirações fortes e suspiros, as palavras sem nexo ou profundidade durassem a madrugada inteira.
Por um momento desejaram estar em outra casa, em outra cidade, em outro país, ou até, em casa meio ínsone abrindo a geladeira, e procurando coisas na televisão que poderiam mantê-los com certo interesse em continuar acordado. Mas estavam um à frente do outro como em um interrogatório, onde ambos eram ladrões sujos culpados, de noites marginais, fumando cigarros até o filtro e acabando com as ultimas gotas presas no fundo do copo, calados, sempre calados, como se cada palavra que pronunciassem, voltar-se-iam contra eles mesmos.
Entreolharam-se depressa, os corações disparavam cada vez que os olhares se cruzavam, e então, suas respirações davam sinais de aceitação ao estado de rejeição recíproca, distraiam-se com pequenas coisas, perdiam-se em cadarços encardidos, e perdiam-se por completo no silêncio da sala.
O sinal mudava constantemente, assim verde e vermelho, barulho e silêncio, porém, as horas passavam como se o sinal estivesse sempre vermelho, e como o silêncio era profundo, sentiam medo de pronunciar qualquer vírgula que fosse, pois as palavras poderiam ser ditas ou expressadas de forma errada, ou entrassem como antônimos no ouvido do outro, preferiam então, permanecer em silêncio, assim seria para sempre, se fosse preciso, para que não ocorressem desentendimentos, controvérsias ou antíteses
Tocar-se-iam no silêncio, dormiriam e acordariam assim, expressariam apenas onomatopéias, como bufadas, tosses, respirações ofegantes, e batimentos cardíacos fortes.
Olhares tímidos trocados, sorrisos ingênuos e inocentes, um olhava para o outro com aquele profundo desejo de levantar-se até o outro e beijar-lhe a nuca exposta.
Sem medo, mas com receio, abrem a boca como se fossem dizer algo, mas nenhum som sai de suas bocas,apenas um ar quente. Continuam assim, respirando, amando.